Nova edição do GIVIMP 2025: impactos para sistemas in vitro baseados em células, tecidos e modelos avançados

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Nova edição do GIVIMP 2025: impactos para sistemas in vitro baseados em células, tecidos e modelos avançados

Artigo escrito por: Daniela Costa

Boas práticas que elevam a qualidade dos dados e a confiança científica e regulatória.

 Nas últimas décadas, os métodos in vitro deixaram de ocupar um espaço periférico na ciência toxicológica e passaram a integrar, de forma estruturada, processos decisórios em avaliação de segurança, análise de risco e desenvolvimento regulatório. Esse movimento, no entanto, não aconteceu de maneira homogênea nem isenta de desafios. À medida que os sistemas de teste se tornaram mais sofisticados, cresceu também a preocupação com a qualidade, a comparabilidade e a confiabilidade dos dados gerados.

É nesse cenário que, no dia 15 de dezembro de 2025, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou a segunda edição do Guidance Document on Good In vitro Method Practices (GIVIMP). Mais do que uma atualização técnica, o novo documento sinaliza um amadurecimento conceitual da área e redefine o papel dos estudos in vitro no contexto científico e regulatório internacional.

A primeira edição do GIVIMP, publicada em 2018, já havia cumprido um papel fundamental ao lançar luz sobre um problema recorrente: a baixa reprodutibilidade de muitos estudos in vitro, mesmo quando conduzidos em ambientes tecnicamente qualificados. Ao estabelecer diretrizes mínimas para qualidade, documentação, infraestrutura e execução dos métodos, aquele documento ajudou a criar uma linguagem comum entre laboratórios, desenvolvedores de métodos e avaliadores regulatórios.

Sete anos depois, o contexto é outro.

Hoje, os dados in vitro são utilizados rotineiramente por indústrias e agências reguladoras não apenas como ferramentas exploratórias, mas como elementos centrais em testes de toxicidade, avaliação de segurança e análise de risco. Além disso, esses sistemas assumiram um papel estratégico na elucidação de mecanismos de toxicidade e na compreensão de processos biológicos associados à exposição a diferentes classes de substâncias químicas.

Ao mesmo tempo, a própria natureza dos sistemas in vitro mudou de forma significativa.

Se antes a cultura celular bidimensional era o principal modelo disponível, hoje convivemos com uma diversidade crescente de sistemas baseados em células e tecidos, cultivados sob diferentes condições, apresentados em distintos formatos e expostos aos itens de teste por múltiplas abordagens metodológicas. Um mesmo material biológico pode dar origem a sistemas completamente distintos, dependendo do arranjo experimental final.

O GIVIMP 2025 reconhece explicitamente essa realidade ao reforçar que o “sistema de teste” não deve ser definido apenas pela origem celular, mas pela preparação final da plataforma utilizada no ensaio, incorporando características biológicas, químicas e físicas do modelo. Dois sistemas derivados da mesma célula humana podem representar, do ponto de vista científico e regulatório, entidades experimentais distintas, com respostas biológicas, limitações e níveis de aplicabilidade diferentes.

Essa mudança de perspectiva é crucial.

À medida que os métodos in vitro se tornam mais complexos, cresce também a necessidade de caracterização aprofundada desses sistemas, incluindo não apenas viabilidade, mas funcionalidade, estabilidade genotípica, fenótipo e desempenho biológico esperado. O documento deixa claro que a simples sobrevivência celular não garante que o sistema esteja apto a responder de forma fisiologicamente relevante ao item de teste.

Modelos avançados podem permanecer viáveis enquanto ativam vias de estresse, alteram o metabolismo energético ou perdem funções específicas relacionadas ao endpoint avaliado. Essas alterações, muitas vezes silenciosas, têm impacto direto na interpretação dos resultados e na extrapolação dos dados para contextos de segurança humana.

Outro ponto relevante abordado pelo GIVIMP 2025 diz respeito à crescente incorporação de sistemas microfisiológicos, tecnologias microfluídicas, células geneticamente modificadas, modelos derivados de células-tronco e organ-on-chip. O documento reconhece que muitos desses métodos ainda não estão prontos para uso regulatório pleno, mas destaca o ritmo acelerado de desenvolvimento e a importância de estruturar, desde já, processos robustos de caracterização, confiabilidade e avaliação de desempenho.

Nesse sentido, o guia reforça que inovação tecnológica, por si só, não é suficiente para gerar confiança regulatória. O desenvolvimento desses sistemas ocorre, em grande parte, nos laboratórios dos próprios desenvolvedores de métodos, exigindo rigor científico elevado, documentação consistente e estratégias claras de validação antes que qualquer extrapolação regulatória possa ser considerada.

Ao organizar as Boas Práticas em dez pilares, que vão desde funções e responsabilidades, infraestrutura e qualidade, até execução do método, relato de resultados e rastreabilidade,  o GIVIMP 2025 consolida a visão de que os métodos in vitro fazem parte de um ecossistema científico-regulatório integrado, conectado a abordagens como IATA (Integrated Approaches to Testing and Assessment) e ao princípio de Mutual Acceptance of Data (MAD).

Mais do que orientar “como fazer”, o documento orienta como sustentar cientificamente o dado gerado.

O salto conceitual entre 2018 e 2025 é evidente. Enquanto a primeira edição buscava padronizar práticas e reduzir variabilidade, a segunda edição desloca o foco para a qualidade intrínseca do sistema de teste, sua relevância biológica e sua capacidade de produzir dados confiáveis em contextos decisórios reais.

Seguir o GIVIMP, portanto, deixa de ser apenas uma boa prática operacional. Passa a ser um compromisso com a maturidade científica da área, com a transparência metodológica e com a responsabilidade associada ao uso de dados in vitro em decisões que impactam saúde humana, meio ambiente e políticas públicas.

Esse movimento exige mais do que protocolos bem escritos. Exige infraestrutura técnica sólida, cultura de qualidade, bancos celulares confiáveis, rastreabilidade, controle rigoroso de materiais e formação especializada. Elementos que, embora muitas vezes invisíveis ao resultado final, sustentam toda a cadeia de confiabilidade científica.

É exatamente nesse ponto que a atuação de biobancos e centros especializados se torna estratégica. Sem sistemas celulares bem caracterizados, armazenados e manipulados segundo Boas Práticas, não há método robusto, não há validação consistente e não há confiança regulatória possível.

O recado é claro: o GIVIMP 2025 não quer apenas laboratórios organizados, quer dados que representem fielmente o comportamento biológico do sistema.

VIABILIDADE NÃO É FUNCIONALIDADE, É APENAS UM PONTO DE PARTIDA

Na prática do laboratório, a viabilidade celular sempre ocupou um papel central. Ensaios como azul de tripan, contagem celular e sobrevivência pós-manipulação eram suficientes para validar o prosseguimento do experimento. No contexto de 2018, isso fazia sentido.

A nova edição rompe com essa lógica.

O GIVIMP 2025 trata a viabilidade apenas como ponto de partida, não como critério final de qualidade. O documento introduz de forma explícita a necessidade de testes funcionais, biomarcadores e avaliação do estado fisiológico esperado do sistema.

Uma célula pode estar viva e, ainda assim, apresentar alterações metabólicas, instabilidade genômica ou perda de função relacionada ao endpoint avaliado. Pela primeira vez, o guia deixa isso claro de forma estruturada: uma célula viva não é, necessariamente, uma célula funcional.

INTERFERÊNCIAS INVISÍVEIS: QUANDO O ERRO NÃO ESTÁ NO COMPOSTO

Outro avanço importante do GIVIMP 2025 é o reconhecimento formal das interferências no método in vitro.

Na edição de 2018, essas interferências apareciam de forma indireta, associadas a solventes, condições gerais do ensaio ou variabilidade experimental. Agora, o documento traz um bloco conceitual específico para discutir interferências do meio de cultura, de componentes não ativos, do próprio sistema celular e das interações inesperadas entre meio, célula, composto e endpoint.

Isso legitima cientificamente algo que a bancada sempre soube, mas raramente documentou: o método pode distorcer o resultado sem que o composto testado seja o problema. O que antes era tratado como “ruído experimental” passa a ser reconhecido como fator crítico de qualidade do dado.

DA DOSE APLICADA À DOSE BIOLOGICAMENTE PERCEBIDA

A discussão sobre dose também amadurece de forma significativa.
Em 2018, a relação dose–resposta era abordada de maneira mais clássica, considerando faixa de concentração, solubilidade e estabilidade. Pouco se discutia, porém, sobre o destino real do composto no sistema.

O GIVIMP 2025 incorpora conceitos de biocinética in vitro e extrapolação de dose, reconhecendo que a concentração adicionada ao sistema raramente corresponde à concentração efetivamente biodisponível para a célula. Adsorção ao plástico, ligação a proteínas do meio, degradação química e metabolismo celular passam a ser considerados elementos centrais na interpretação dos resultados.

Com isso, o documento rompe com a lógica simplista da toxicologia “de placa” e aproxima os métodos in vitro de uma leitura mecanística mais realista.

MÉTODOS AVANÇADOS EXIGEM RESPONSABILIDADE PROPORCIONAL

A nova edição reconhece oficialmente a complexidade atual da área, incluindo exposição em interface ar-líquido (ALI), métodos intensivos em dados e sistemas com maior integração biológica. A mensagem, no entanto, é direta: esses métodos são necessários, mas exigem um nível muito mais alto de controle, caracterização e documentação.

Quanto mais sofisticado o sistema in vitro, maior é a responsabilidade sobre a qualidade do dado gerado. A tecnologia, por si só, não garante relevância científica ou aceitação regulatória.

O MÉTODO NÃO TERMINA NO LABORATÓRIO

Talvez a mudança mais estratégica do GIVIMP 2025 seja sua integração explícita com IATA, Mutual Acceptance of Data (MAD) e fluxos regulatórios internacionais. O método in vitro deixa de ser visto como um experimento isolado e passa a ser tratado como parte de um ecossistema decisório.

O dado gerado precisa sobreviver fora do laboratório, ser compreendido, avaliado, reproduzido e utilizado em contextos regulatórios reais.

MAIS CIÊNCIA, MAIS RESPONSABILIDADE

O GIVIMP 2025 eleva o nível científico dos métodos in vitro, fortalece sua credibilidade e aproxima definitivamente ciência e regulação. Mas esse avanço também expõe fragilidades de práticas automáticas e exige mais formação, mais senso crítico e mais compreensão dos sistemas utilizados.

O avanço dos métodos in vitro não é apenas tecnológico.
Ele é conceitual, ético e científico.

E o que vem a seguir?

Ao longo de 2026, o Banco de Células do Rio de Janeiro (BCRJ) irá explorar com mais profundidade os impactos práticos dessas mudanças, discutindo temas como:

  • caracterização funcional de sistemas in vitro,
  • interferências silenciosas em cultura celular,
  • biocinética e interpretação de dose,
  • modelos avançados e seus desafios regulatórios,
  • e o papel das boas práticas na qualidade do dado.

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PARCEIROS

Fonte: OECD (2025) – Guidance Document on Good In Vitro Method Practices (GIVIMP), 2ª edição. https://www.oecd.org/en/publications/guidance-document-on-good-in-vitro-method-practices-givimp-second-edition_5ba6777b-en.html

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